aconteceu: tirei os sisos. neste momento, estão os dois-e-alguns-quebrados (os de cima saíram mais inteiros que os de baixo, que praticamente só sobraram as raízes) numa solução de água + água sanitária, pra ajudar a desinfetar, depois de eu esfregar bastante com escovinha pra sair os pedaços de mim (!!!) que ainda estavam grudados neles.
vamos a uma linha do tempo, mas sem linha e também mais ou menos sem tempo:
- assim que meus sisos começaram a doer (logo depois que perdi o emprego, no começo do ano, risos), fui atrás dos processos pra resolver isso aí. vendo o raio-x, dava pra perceber que os dentes de baixo estavam totalmente deitados e os de cima também não estavam na melhor das posições
- eu nunca tinha feito nenhum procedimento odontológico invasivo (acabei de criar essa frase aqui); nunca extraí dente que não fosse de leite (e esses, que me lembre, saíram todos em casa), nunca usei aparelho fixo (só móvel), nunca tive nenhum grande problema na boca (fora o bruxismo, consequência gostosa de estresse). logo, não fazia ideia do que esperar
- quando o bicho pegou e TODOS os sisos começaram a doer, marquei com a dentista e ela disse pra gente remover os 4 de uma vez. fiquei felicíssima; afinal, resolver tudo numa tacada só sempre me parece melhor do que fazer aos poucos (e é uma recuperação só, também, né)
- chega a semana da extração (que, basicamente, foi a semana seguinte à consulta com a dentista descrita no ponto anterior): me organizei toda pra não precisar levantar um dedo por 3 dias após a cirurgia, lavei roupa, limpei casa, comprei açaí, fiz caldos coloridos (que ficaram lindos, inclusive), comprei remédios. fui tão funcional que me choquei positivamente comigo mesma
- dia da extração (ontem, sexta-feira): tomei os remédios receitados 1 hora antes do horário marcado, passei na farmácia pra comprar um enxaguante bucal com 0,12% de clorexidina, e fui de ônibus pro consultório de odontologia. não tava nervosa, mas não tava tranquila — típico de quem não sabe muito bem o que esperar
- 14h40: chegando no consultório. esperas, trâmites, finalmente entro pra começar. o que mais me apavora, enquanto alguém que não sabe o que vai rolar (fiz no máximo uma limpeza dos dentes, meu camarada), é a anestesia na boca: tenho medo de doer, tenho medo de arder e, principalmente: MORRO DE MEDO DE AGULHA
- mal saberia eu, mas a anestesia, apesar de ser um momento TENSO nas extrações de ambos os lados, foi o momento mais tranquilo de tudo. as “picadinhas” com a agulha não doeram tanto, apesar de eu apertar minhas próprias mãos com MUITA FORÇA por causa do nervoso, e não ardeu quando a anestesia começou a entrar. foi mais incômodo do que qualquer outra coisa, porque eu sentia algo dentro da minha carne (a agulha) e algo entrando (a anestesia), mas de um jeito esquisito, só físico, sem a sensação da dor
- 15h30: começa a cirurgia. só avisando que esses horários, apesar de aproximados, são puramente ilustrativos. a médica me pergunta por qual lado eu quero começar, digo que tanto faz, ela insiste, e eu digo que o lado direito é o que mais tem doído; começamos por ele, então. é esquisitíssima a sensação de alguém cortando sua gengiva e raspando seu osso e você sem sentir um pingo de dor, mas sentindo a sensação física. quando eu digo “sensação física”, é porque é esquisito, como se fosse uma descrição num livro: ela encostou na minha boca. você sabe o que aconteceu, mas a sensação exata não vem. a anestesia é esquisitíssima, minha boca parece ter uma tonelada
- preciso escancarar muito a boca e, caso você nunca tenha passado por isso, é extremamente desconfortável e os músculos do rosto reclamam. fiquei pensando, em vários momentos: e se eu abrir a boca demais e minha mandíbula desencaixar? será que dói? não preciso descobrir, porque minha mandíbula, ao que tudo indica, não desencaixa. pra me distrair, enquanto a dentista diz que meu dente de cima está numa posição difícil de acessar, tento me distrair do nervoso cantando mentalmente as partes de farol, do disco novo do maglore, que eu lembrava de cabeça — que consistia, basicamente, da frase “então deeeeixa o meniiino sonhaaaar” e o ritmo da música em seguida. digo a mim mesma pra não ficar tão tensa, não apertar tanto as mãos, mas não adianta, pois ESTOU tensa
- 16h30: a dentista consegue tirar o primeiro dente, o siso superior do lado direito. ele sai praticamente inteiro. fico feliz, porque quero levar os dentes pra casa e fazer jóias com eles. fico muito feliz em não sentir os pontos, mas a sensação de alguém apertando algo na minha boca COM FIOS QUE EU POSSO SENTIR NO ROSTO é de uma aflição terrível
- começamos a extração do siso de baixo. digo começamos porque a dentista que extraiu, mas eu que estava lá com a boca escancarada, doendo, o corpo NERVOSO com o trauma. já tinha demorado muito mais do que eu e a dentista achávamos que iria, e eu pensei: o de baixo vai ser de boas. ela vai serrar ele no meio, tirar, e vai dar tudo certo
- ...só que não deu tudo tão certo. meu dente de baixo, além de estar deitado em berço esplêndido, estava deitado em um osso extremamente duro, e passando por baixo dos outros molares; ou seja, um inferno pra ser removido. a dentista fez várias alavancas, quebrou um monte de pedaços, e eu só digo uma coisa: a sensação de alguma coisa se mexendo dentro do seu crânio, por dentro do osso, é horrorosa. eu não estava sentindo dor, mas meu cérebro sabia que deveria ser doloroso, então comecei a sentir como se estivesse sentindo (???), fora a boca escancarada (que estava, de fato, doendo) e a sensação das ferramentas na minha pele
- eventualmente, penso: daqui a pouco isso tudo já vai ter passado, eu vou estar em casa e pensando que já aconteceu. tá acontecendo agora, mas daqui a pouco já vai ter acontecido. mesmo assim, não consigo me acalmar, minha cara dói, e começo a chorar. a dentista fica preocupada e para, pergunta se estou bem, se estou sentindo dor, diz que vai me dar uns instantes. digo que não sei porque estou chorando (mentira, sei sim, é uma situação estressante pra caralho, dolorida, e frustrante também), enquanto a sensação de querer chorar MESMO (fazer carinha e os barulhos típicos de choro) começa a chegar, e eu me controlo pra não ceder. respiro fundo, damos 5 minutos e ela volta à cirurgia
- pra minha coleção de fatos curiosos sobre procedimentos: quando fiz a cirurgia de correção de grau, uma das coisas que mais me marcou foi que o laser agindo nos meus olhos levantou um cheiro de gordura pingando no fogo, quando você tá fazendo churrasco. na extração dos sisos, subiu um cheiro de queimado, também, mas diferente, porque era o cheiro da broca sofrendo com a resistência do osso: um cheiro parecido com quando você tenta furar a parede, a furadeira fica quente, mas não vence a dureza da parede
- 17h30: o dente de baixo é muito mais traumático que o de cima, por estar por baixo dos outros, mas sai — em pedaços, inclusive. só a raiz sai mais ou menos inteira. dou graças a todas as entidades que existem, mas a única coisa que minha mente consegue pensar, além do alívio, é: meu deus, agora tem o outro lado
- a dentista me acalma: agora ela já sabe como vai ser, passada a primeira metade da coisa. rezo pra que de fato seja mais fácil, rápido, e menos traumático, porque estou exausta (e ela também; comenta que não se lembra da última vez que a remoção de 4 sisos demorou mais de uma hora e meia). lá vamos nós pra anestesia de novo — meu deus, que agonia que é a agulha no céu da boca
- 17h50: a dentista não estava de brincadeira! agora, sabendo o quanto cortar, onde mexer e o que fazer, o dente de cima do lado esquerdo sai com 20 minutos. depois do primeiro lado ter demorado duas horas, eu genuinamente fico incrédula, mas feliz
- a segunda parte é extremamente mais tranquila, com a dentista conversado comigo; descubro que ela também dá aula, mas gosta muito de atuar na área, além do meio acadêmico. ela comenta que meu osso é muito duro, nada poroso, e que isso é ótimo pra mim mas péssimo pra ela, enquanto troca a broca porque o osso é tão duro que desgastou a bichinha todinha. na “alavanca” pra tirar o dente esquerdo de baixo, uma das ferramentas pega no meu céu da boca, mas não chega a cortar, só machuca um pouco, mesmo
- 18h30: ela me diz que acabou, e eu mal acredito. de novo, o dente de cima sai praticamente inteiro, e o de baixo em pedaços e um naco maior de raiz. penso: ufa. penso também: ainda vez que foram os 4 de uma vez só, porque se fossem dois e depois outros dois, acho que eu ia ficar com 2 sisos na boca pra sempre e nunca mais ia voltar no dentista
- a dentista, fofa, me elogia dizendo que eu fui super colaborativa. me passa a receita, os cuidados, e me explica o que posso e não posso fazer. ela separa meus dentes (e fragmentos de dente), faz uma cama de gaze, e coloca no potinho que eu trouxe pra levar eles pra casa
- 19h50: chegando em casa, depois de sofrer pra pedir um uber e passar na farmácia pra comprar os remédios, tomo logo o remédio mais forte de dor, que me deixa tranquilona. faço o cronograma dos remédios no meu calendário do celular e pego a bolsa de gel pra fazer uma compressa
gente, juro. finalmente entendo quem tem medo de dentista. acho que nunca passei por um negócio tão traumático na vida — a sensação da anestesia é esquisitíssima, ter alguém mexendo com tanto VIGOR na sua boca é esquisitíssimo. mas, de fato, tal qual meu mantra diz: já aconteceu, e agora é só uma lembrança. e ainda bem que foram os quatro. um ponto positivo é que não estou sentindo dor, meu rosto tá inchado mas bem menos do que eu achei que estaria, e o sangramento estancou super rápido ontem.
agora, o que eu mais queria era poder mastigar qualquer coisa e comer algo quente... mas uma batalha de cada vez, né.