uma anedota: esses dias, subiu uma notificação de atualização no computador do trabalho. a atualização vinha de um programa que eu não tinha visto antes, e eu, cabreira com tentativas de phishing que tinham acontecido dias antes pra outras pessoas da firma, fui perguntar pra querida que é meu contato de cybersegurança se era algo legítimo.
eu disse algo como: é que mesmo trabalhando com tecnologia, eu sou meio burra pra essas coisas. ela me respondeu: se você se chamar de burra mais uma vez, vou brigar com você. não é falta de inteligência. digamos que é falta de escopo.
trago este causo porque eu pensei em começar aqui já deixando claro o quanto eu não sou tão versada em política quanto várias pessoas que eu acompanho. não participo de militâncias há muito tempo, não tenho perfis em redes sociais pra acompanhar discussões importantes, há eras não estudo sobre nada (tenho uns livros sobre política encostados ali, socorro). mas, ultimamente, tenho sentido uma urgência em usar minhas plataformas, tão pequenas e poucas quanto sejam, pra dizer o que eu acredito, porque é importante. porque foi lendo e ouvindo e presenciando e raciocinando e debatendo que eu me tornei alguém que pensa por si mesma, que questiona e pesquisa antes de afirmar.
escrever é uma das poucas coisas que eu sei fazer bem e faço com frequência. é uma paixão que vem desde que eu comecei a ler histórias, e percebi que podia criar histórias que poderiam ser lidas por outras pessoas. a escrita só vem junto com a leitura, e por isso mesmo eu quis fazer essa mea culpa: tenho lido pouco. estudado pouco. em tempos em que isso é extremamente necessário, em que a educação é uma arma forte da população que precisa de direitos que de fato a protejam.
mas, como bem disse magia em seu blog: tudo é política. a minha mera existência é política. a sua também. nada existe no vácuo — eu vivo em um país que foi colonizado, que foi o último das américas a abolir a escravidão. eu nasci e me criei como mulher, me entendi como pessoa lgbt+, nada disso se isola de quem eu sou e como interajo com o mundo.
eu falo de um lugar de privilégio. meu pai teve que trabalhar desde cedo pra ajudar em casa, construiu uma carreira; minha mãe foi criada em um convento e na pobreza, construindo família por onde passava, sem uma rede de apoio na qual se segurar. eu fui criada com uma família que me deu condições e estrutura pra ter uma infância tranquila e estudar, sem precisar trabalhar desde cedo. estudei em colégio particular, depois público, depois num instituto federal, depois numa universidade pública. meu pai me colocou num curso de inglês, quando eu pedi.
na minha vida, a educação sempre veio em primeiro lugar.
até a minha adolescência, a minha maior influência sempre foi a minha família, assim como a de muita gente. quando a gente começa a desenvolver o pensamento crítico, a perceber com cores mais vivas o mundo à nossa volta, surge a necessidade de buscar mais fontes de verdade e realidade: nada existe no vácuo. minha realidade pode não ser a dos outros. antes mesmo da adolescência, já me deparava com realidades diferentes da minha, na família e fora dela: tios mais ricos e mais pobres, e com todos eles a convivência era normalizada. nada era tido como fora do comum; paredes de tijolo exposto e condomínios privados eram só detalhes da casa de alguém, antes de eu entender como essas realidades eram discrepantes. minha mãe teve a ajuda de muitas empregadas domésticas, que também eram babás, e juntas elas construíam a nossa rotina em casa. lembro de visitar a casa de muitas delas — algumas casas tão pequenas que era desesperador, agora que eu olho pra trás —, brincar com suas filhas, minhas amigas. eu era só uma criança, pessoas eram só pessoas, casas eram só casas. na visão de uma criança, tudo é simples.
tenho que agradecer aos meus pais por não me criarem em uma bolha na qual tudo é mais-ou-menos igual. por saberem o que era a pobreza e a miséria e não a isolarem em uma crendice de desgraça: gente pobre também existe, brinca, come, ri. gente pobre também tem opinião. gente pobre é gente, antes de ser pobre. e toda a gente vale o mesmo tanto.
quando penso em como meus pais me criaram, como minha família (nuclear e estendida) funcionava, me surpreende ver essas mesmas pessoas com um posicionamento político tão à direita. talvez, explorando um pouco mais da história de todos eles, exista algo que dê sentido a esse medo da esquerda. meus pais, os dois, fizeram faculdade depois que eu já tinha nascido: fui à formatura dele e dela. os dois se agarraram à educação como um meio de ter uma vida melhor, e de oferecer uma vida melhor aos filhos. antes de buscar referências políticas em outros lugares, minhas bases eram claras: todo mundo deve ter acesso ao básico — segurança, moradia, comida, educação. o acúmulo de tantos recursos por tão poucas pessoas nunca fez sentido pra mim. na sexta ou sétima série, defendi a reforma agrária em um exercício da aula de história, para a tristeza do meu pai. na minha mente: que mundo é esse em que algumas pessoas moram na rua enquanto outras não conseguem nem dar conta de tudo o que possuem?
ao sair da escola particular e passar a estudar em uma escola pública, conheci muitas realidades diferentes da minha. aprendi, sozinha, que não existe uma única régua com a qual eu poderia medir o mundo, nessas coisas que a gente quase nunca diz em voz alta, mas matuta em silêncio, dentro de si. no ensino médio, em uma escola federal, conheci mais realidades e mais gente ainda. acredito que uma das maneiras de não se fechar em uma bolha é justamente essa exposição a tantas realidades diferentes, combinada à curiosidade, à vontade de conhecer e aprender sem julgar. do alto do meu privilégio, conheci pessoas mais inteligentes que eu, com menos recursos que eu, com mais recursos que eu, com famílias diferentes da minha, com opiniões diversas. conheci o conceito de “grêmio estudantil”. tirei meu título de eleitor assim que fiz 16 anos, e votei, em silêncio, em quem eu acreditava que levaria meus ideais ao executivo. mas tive o direito à escolha. ao voto. a escolher o que eu quisesse, não o que eu deveria querer. o que quer que isso significasse.
digo que não sou versada em política e isso pra mim é algo claro: não acompanho ativamente o que acontece em fóruns públicos. o que enxergo, principalmente agora, como uma vergonha. não estar em redes sociais torna mais difícil que a informação chegue a mim com a mesma velocidade, mas há outros meios — sempre há. tenho o fácil acesso à informação na ponta dos dedos: posso pesquisar as propostas dos candidatos, posso acessar canais de checagem de fatos. em alguns momentos, como o de disputas políticas, a internet é também uma grande aliada, quando se sabe que tudo deve ser questionado. que fontes devem ser checadas.
afinal de contas: o que é política? essa é uma palavra que acumula diferentes significados.
política pode ser tudo o que diz respeito ao bem comum de todos nós enquanto cidadãos, aos assuntos públicos, à organização da sociedade. política pode ser o conjunto de regras que nos engloba e define a forma como nos relacionamos com o outro e com o todo. política pode ser como te percebem em um ambiente, como você constrói a sua imagem em um meio profissional, como se porta.
no geral, política tem a ver com regras; com definições do que é ou não é aceitável, do que é ou não percebido como desejável. política, a meu ver (as opiniões deste blog são exclusivas da autora, que é meio biruleibe das ideias), é como a sociedade constrói, destrói, define e redefine seus dogmas: seus princípios inquestionáveis. porque, sejamos honestos, todos nós temos nossa coleção de dogmas. de coisas que acreditamos e não abrimos mão. é por esses dogmas que definimos um lado, que entendemos as lutas das quais queremos participar.
no fim, por mais que seja complexo (o poder corrompe tão fácil!), é simples: política é a forma como moldamos o mundo à forma que acreditamos que ele precise ter para que sigamos existindo enquanto sociedade. é enxergarmos em um representante do executivo, em representantes do legislativo, pessoas que irão defender e argumentar pelas mesmas coisas que acreditamos.
eu não me vejo como uma pessoa versada em política porque não acompanho o que tem acontecido com tanto afã, mas não ter conhecimento teórico ou não estar atualizada sobre nomes e discussões não me impede de ser uma pessoa ativamente política. tudo o que eu contei aqui, sobre poder focar nos estudos, sobre estudar em escolas públicas, sobre ser mulher, sobre votar em silêncio — tudo isso tem a ver com política. todas essas foram coisas conquistadas pelo povo, a partir de pessoas que pensavam de forma progressista: que as coisas não podiam continuar do jeito que estavam, que os direitos que as pessoas tinham até então não eram o suficiente. que uns não podem prosperar em detrimento de outros. os meus privilégios vem de ações individuais de quem me criou e me educou, mas também da política. se hoje eu posso existir, se posso amar quem eu quiser, se posso votar, se posso trabalhar, se posso me manter, se tenho a mesma voz que outros nos meios em que atuo, isso tudo tem a ver com alguém acreditar, em algum momento, que não era justo que alguns pudessem fazer essas coisas e outros não.
existem muitas vertentes políticas pelas quais enveredar. eu me coloco sempre à esquerda: acho que gente é gente, e toda gente devia poder existir com dignidade. acredito e anseio por políticas públicas, sociais. tenho lá minhas opiniões polêmicas, também (não acredito em ressocialização em todos os casos, por exemplo); mas acredito no poder da escolha pelo povo. sempre votei: votar, pra mim, é o maior poder que temos enquanto sociedade, mesmo com a corrupção que o poder traz, mesmo com tudo o que vemos acontecer nos altos pavilhões dos cargos políticos do executivo, legislativo e judiciário. a escolha, no fim, ainda vem de muitos, e não de alguns. ainda podemos nos posicionar. ainda podemos escolher, e eu acredito no poder da escolha.
é por isso que meu voto é e sempre será pela democracia e pelo que eu acredito, independente do candidato ou do partido. por um povo que pode escolher, que segue em frente, que não se prende a dogmas conservadores, ultrapassados, que priorizam o bem de uns e abandonam outros. caso não esteja claro: meu voto, nesse domingo, é 13. não porque eu acredite cegamente no governo atual, ou em uma figura milagrosa que resolve todos os problemas; sou muito crítica à ideia de que seremos salvos por um herói, porque pra mim política se constrói em cima de ideais, e não de pessoas. sou muito crítica à forma como uma linguagem militarista está sendo usada para defender o lado democrático. me vejo mais à esquerda do que o governo atual, muito mais à esquerda do que a maioria do legislativo.
voto 13 porque é um governo que se reconhece como democrático. que se permite ser criticado, que não se blinda contra o povo para o qual (e a partir do qual!) governa. que permite que quem é contra ele também se manifeste, que surja com outras possibilidades para que o povo escolha, com o voto da maioria. voto 13 porque eu não acredito em colocar uma pessoa com um discurso higienista, corrupto, conservador, que privilegia uma minoria já privilegiada, no poder; porque eu sei que vamos poder continuar votando depois dessa eleição, caso lula seja eleito. porque a esquerda acredita que gente é gente, e a extrema-direita acredita que gente são apenas alguns. porque eu acredito que direitos conquistados não deveriam ser desfeitos. porque existir, em todos os papéis sociais que eu ocupo, foi menos assustador com as conquistas da esquerda.
é por isso que, direto do vale da minha ignorância, eu voto. porque eu acredito no voto, e acredito que todo mundo deve ter o direito de poder escolher — mesmo que essa escolha seja diferente da minha. e é por isso que eu acho que, a partir de agora, o foco deveria ser justamente no que eu não estava fazendo: acompanhar, ensinar, dialogar, aprender. pra que o povo entenda as implicações de um momento como esse. e pra que a gente não precise lutar pela mera possibilidade de votar uma outra vez.