(eu tenho escrito pra cá todo dia ultimamente, e não sei se gosto do fato de que estou empolgada, me contento com a possibilidade de só estar sofrendo do ócio pelo repouso pós-extração dos sisos, ou fico com medo de estar em mania e meio obcecada em escrever.)
voltando da minha consulta na dentista pra tirar os pontos da gengiva (vencemos essa, time!!!), eu passei nos correios pra postar duas cartas. chegando em casa, enquanto eu jantava, o interfone tocou: tinha chegado uma correspondência.
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| algumas vão, outras chegam |
eu quero falar sobre cartas. na verdade, repetir coisas que eu provavelmente já disse, e contar uma história que eu espero que afague o coração de alguém tanto quanto afaga o meu. eu falo em cartas com uma boa frequência, tenho sempre alguma carta atrasada pra escrever, e vivo na expectativa de aparecer alguma coisa na minha caixinha de correio que não sejam panfletos de pizzaria. às vezes, aparece.
pois bem: eu tenho uma amiga chamada letícia, que conheci no antigo trabalho. lê decidiu me fazer um presente de aniversário especial em 2024: um marcador de livro, ilustrado e pintado por ela, de uma menina com uma galinha (eu amo galinhas). ela teve a ideia de enviar o marcador junto a uma carta, mas a cada dia que não terminava o desenho, descartava o que tinha escrito e começava outra vez no dia seguinte. em algum ponto, decidiu enviar tudo o que escrevesse a partir dali, quase um “diário criativo” da feitura do presente. ela escreveu:
Como a cada dia que não termino seu presente acabo reescrevendo a carta que acompanharia, decidi enviar todas elas, como parte do processo!
Talvez seja estranho? Espero que não. Talvez seja um entretenimento quando ler? Espero que sim! Pelo menos parece algo que Elizabeth Bennet ou Margareth Hale fariam — e que pareceria um toque especial.
lê me escreveu do dia 11 ao dia 23 de janeiro, só como forma de fazer uma graça. a carta chegou pouco depois do meu aniversário, um envelope com um marcador de livro e cinco folhas escritas.
eu penso nela, frequentemente, há mais de 2 anos.
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| nenhum presente é mais bonito do que uma carta escrita espontaneamente |
acho que essa carta foi um dos presentes mais sensíveis que eu já recebi, que mais me tocaram, e ela nem tinha a intenção de ser tudo isso — era só uma gracinha, um meio de não deixar o envelope vazio. o marcador de livro ficou maravilhoso, e eu o uso até hoje, mas algo sobre a espontaneidade da carta e as coisas que ela escreveu ficaram comigo de um jeito diferente. no dia do meu aniversário, ela começa dizendo:
Saudações, Xis! Como vai?FELIZ ANIVERSÁRIO!Queria te escrever essa carta com a certeza de que te faria sorrir.Poderia escrever sobre seus delineados bonitos, que são como o episódio novo do dia seguinte: diferente a cada um. Ou sobre a forma como interage com as pessoas, fazendo com que se sintam à vontade contigo e com suas próprias excentricidades. Ou ainda, como acolhe todos. Talvez valesse a pena ressaltar como se dedica aos seus passatempos? Com certeza sobre como admiro seu trabalho. Há tantas outras coisas... (...)
conhecendo a lê, sei que ela não teve a menor pretensão de escrever algo grandioso; realmente, queria só me fazer feliz. não éramos tão próximas e nem tão distantes, amigas unidas pelo trabalho e por pessoas em comum que nos acolheram, e ela dizia coisas que acreditava serem claras ou óbvias, de um jeito franco e simples. eu chorei quando li pela primeira vez. agora, lendo pra poder contar isso aqui, chorei de novo. sem querer e sem pensar muito, ela me presenteou com a visão crua que tinha de mim: uma pessoa que eu ainda espero, de fato, ser.
esse é o primeiro motivo pelo qual eu amo cartas: sem querer, enquanto estamos escrevendo, saem coisas que a gente nem pensou que queria dizer. o raciocínio se desenrola diferente quando escrevemos, talvez por ser uma forma diferente de processar e decodificar o que estava na nossa cabeça. a carta é uma conversa que começa com um longo monólogo, com tempo pra se elaborar e estender o quanto quiser; só se torna diálogo ao receber sua resposta, o que não acontece tão rápido. e a conversa, como não alcança o interlocutor no seu começo, acaba sendo mais com a gente do que com qualquer outra pessoa, já que somos obrigados a encarar o que nossa mente fez o favor de colocar no papel. pra mim, acaba sendo sempre um exercício de compreender o que eu estou pensando e sentindo e não consegui entender ainda, ou descobrir algo que genuinamente me empolga ou me deixa feliz, ou fazer exatamente o que minha amiga fez: ser desintencionalmente gentil e franca de um jeito que não nos permitimos tanto, levando em conta as convenções sociais e as interações do dia-a-dia.
esses dias, fiz um bordado e escrevi uma carta pra ela, também, com a mesma intenção: fazê-la sorrir no seu aniversário. na minha carta, refleti muito sobre como essa carta dela me impactou e impacta até hoje, e repeti várias vezes alguma variação da frase: cartas são uma preciosidade. porque falamos conosco antes de falar com a outra pessoa; porque falamos com a outra pessoa, também, numa vulnerabilidade intencional ao enviar a carta com destinatário certo. porque, ao serem meios de comunicação que não se encaixam muito bem em nenhuma das categorias que estamos acostumados no cotidiano, surgem epifanias: fichas que não tinham caído começam a se estatelar no chão.
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| já não sei de quando é a primeira carta, porque pingou água justamente no ano! |
fiquei muito surpresa quando recebi a carta da vanessa: afinal de contas, ela me enviou na terça — um recorde para o tempo que geralmente essas coisas levam, na nossa experiência. ao abrir o pacote, uma surpresa: um livro (não deveria ser tão surpresa assim, afinal, vanessa quase sempre envia um livro junto às cartas! essa mulher sozinha poderia realfabetizar o brasil), que era inclusive uma nova edição de um dos primeiros quadrinhos que eu comprei na vida, quando passei a gostar e consumir mais graphic novels. apesar de ela ficar meio triste por não ser um livro inédito pra mim, achei que se encaixou muito bem: já trocamos correspondência, nos falamos e lemos o blog uma da outra há tanto tempo que ela conseguiu acertar na mosca e reforçar um livro bom com uma memória querida.
na carta dela, atrás da segunda folha, uma frase simples adornada com dois adesivos de xícara: um dia vamos tomar um cafezinho juntas.
em um momento em que penso cada vez mais sobre a vontade de me cercar de pessoas queridas pra fazer coisas simples, eis a segunda coisa que gosto muito sobre as cartas: através delas, amizades podem se construir com calma, ao longo do tempo, em torno de coisas simples. nossas cartas não são enormes e cheias de longas descrições, e não precisa disso pra sentir que eu a conheço e que ela me conhece também. desde que trocamos nossa primeira carta (eu ainda morava em minas gerais!), falamos da vida, de livros, de trabalho, trocamos adesivos, eu vi a criação do clube do livro dela e trocamos pequenas ideias sobre a vida. não precisou ser intenso e fervoroso — e não é que não possa, só que não precisa. em tempos de imediatismo, é bom saber que podemos ter calma e construir uma relação sem precisar que tudo se consolide no primeiro instante, de forma esbaforida. eu tenho desde cartas que são quase um bilhete até mais de uma folha, falando sobre coisas que aconteceram na vida da minha amiga, sobre como ela colocou algo que a fez pensar em mim, sobre como planejou algo divertido para o meu aniversário porque queria me fazer feliz. ela tem cartas minhas com os mesmos assuntos. me tornei próxima de uma pessoa que considero das mais gentis que já conheci, e fico feliz pensando que, de fato: um dia tomaremos um cafezinho juntas, e talvez ela me ensine a fazer algum dos embrulhos magníficos que mostra por aí de vez em quando.
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| duas cartas simples, dois sorrisos garantidos: uma de minha amiga elise, outra de minha digníssima |
e, antes que eu perca o fio da meada, algo que sempre considero muito importante quando penso em trocar cartas com as pessoas: a terceira coisa que eu amo nas cartas é que não importa como ela é, só o fato de ser uma carta já é o suficiente para fazer o dia de quem recebe. não importa se ela é enfeitada ou não, se tem presentes ou não, se foi escrita num papel de carta ou numa folha rasgada de um caderno; o que importa é que alguém encontrou tempo e vontade de escrever pra você, de sair de casa, ir até uma agência dos correios e enviar, sabendo que te deixaria feliz, em algum momento. a carta é exatamente isso: uma intenção concretizada de causar a sua felicidade. tem coisa mais bonita que isso? basta receber uma carta que eu fico contente o resto do dia, às vezes esticando a alegria pro dia seguinte ou mesmo pra semana. e pode até ser que você releia mensagens instantâneas favoritadas, mas há algo de especial em poder segurar nas mãos algo palpável que representa uma das vezes que alguém pensou e se importou com você. talvez eu esteja sendo meio dramática — algo que eu definitivamente sou —, mas num mundo de efemeridades e imediatismos, acho bonito e importante me apegar a essas memorabílias. atos de amor e carinho, de gentileza gratuita e franca, coisas dignas de serem lembradas em meio à correria da rotina.
pra você que nunca trocou cartas com alguém: espero ter aberto seu coração a essa possibilidade. pra você que já as troca: espero que continue. é um dos meus passatempos favoritos e mais queridos, e me faz um bem danado. já mandei carta pra minha mãe, prima, vó, amigas, amigos, já recebi cartões postais e inúmeros bilhetes. nunca é tarde pra começar a escrever alguma coisa num pedaço de papel e ver onde é que isso vai dar.



