segunda-feira, 6 de julho de 2026

a vida pode ser boa, se você deixar

eu ando meio cansada.

é engraçado que se possa estar cansada e desempregada ao mesmo tempo, eu sempre penso, quase como se fosse injusto; afinal, eu não faço muita coisa. afinal eu existo precariamente, poucos movimentos, pouca comida, pouca água, pouca cabeça pra pensar em qualquer coisa que seja. eu como porque tenho que comer, limpo a casa porque tenho que limpar, encontro algum ânimo pra assistir um vídeo, ler um livro; eu saio pouco. eu abro meu e-mail todos os dias, horrorizada, esperando mais negativas e nenhuma boa notícia.

às vezes (será que é sempre?), eu morro de medo que Outras Pessoas encontrem o meu blog: a gente existe de maneiras diferentes em lugares diferentes, e tenho medo que alguém que me vê de um jeito me veja de outro. quem me conhece diferente sabe que eu sou assim, uma pessoa que tenta existir sem pedir desculpas. unapologetic, a palavra em inglês. no ambiente de trabalho não dá pra ser sempre a mesma pessoa sem pedir desculpas, não dá pra dizer que se está mal e que mal se consegue levantar e encontrar um motivo pra apertar botões e teclinhas que vão ganhar dinheiro pra alguém bem mais rico que eu. me contento em ser a melhor pessoa que posso ser no trabalho, sem falar do que é proibido, mas ainda sendo eu; quero mostrar pras pessoas quem eu sou de verdade, mas morro de medo que elas me vejam. eu não ligo, mas ligo. todo mundo quer ser aceito e ser amado, não é?, e eu não preciso que alguém me ame a partir de quem eu sou de verdade, mas tenho medo de que alguém que me via como A Minha Melhor Versão Do Trabalho veja o que eu sinto, como eu falo, e já não goste mais de mim.

é irônico. tenho pensado muito nisso: as pessoas do trabalho. volta e meia alguma me vem à cabeça quando vejo algo que desperta uma lembrança; um cachorrinho? aquele rapaz do sul. um jogo? a desenvolvedora. legos? o rapaz que me via todo dia, na segunda pela manhã, os dois com a cara de cansaço de quem sabe que a semana vai ser longa. todas essas pessoas existem na minha vida e, ao mesmo tempo, não existem mais; agradeço pela minha amiga que escreve em cadernos, que usa agendas, que desenha e que deixa o sobrinho pintar com os dedos, fazer uma bagunça, essa amiga que o trabalho me apresentou e que o mundo me deu. agradeço pela outra amiga, a líder, que saiu da empresa e que o mundo já tinha me dado de presente. não dá pra levar todo mundo pra vida, eu acho. não há botes o suficiente no titanic.

daqui a três dias vai fazer quatro meses que fui demitida. umas vezes penso: que oportunidade perdida. outras vezes: é a vida. eu andava infeliz e a vida anda pra frente, ela decide antes que a gente consiga olhar pras opções, ela segue e a gente é obrigado a seguir com ela, senão fica pra trás. eu segui alguns dias, e em outros assisti ela se tornar uma figura cada vez menor no horizonte. não dá pra gente estar bem o tempo todo, mas é preciso tentar. por si, no máximo — porque é mais fácil, é o mínimo, estar bem pelo outro. é difícil encontrar motivo pra cuidar de si. falo sempre com amanda: somos muito cruéis com a gente. a minha imagem no espelho é sempre mais feia. o erro que eu cometi é sempre pior. posso perdoar o outro, mas parece impossível perdoar a si. por que isso? eu queria saber.

os últimos dias têm seguido mais tranquilos, apesar de ainda difíceis; oportunidades despontam, me lembram que o mundo não vai acabar enquanto eu grito pra dentro de mim que é o fim dos tempos. a vida me mostra a situação de maior insegurança que eu já vivi, e eu respiro fundo: tudo tem que ser vivido antes que se saiba como viver. uma frase escrita a fogo na minha mente, desde não-sei-quando: i'll try anything once. e pergunto de onde é, e encontro a demo de you only live once, dos strokes. ouço pela primeira vez, e me pergunto como essa frase foi parar na minha vida. é improvável que eu me lembre, e me contento com isso; a gente tem que viver as coisas pra poder saber como agir só depois. a vida é um manual de instruções que se escreve depois de cada jogada, e eu sempre digo que é melhor aprender fazendo. se a gente vive as coisas mais fantásticas pra se lembrar depois, nada mais natural do que viver as mais doloridas também. a dor é menor da segunda vez, porque a gente consegue se preparar. porque há uma referência.

joguei o capítulo recém-lançado de um dos meus jogos preferidos. a esperança me encara de longe, um pontinho que vai ficando maior enquanto se aproxima cada vez mais. a pessoa que eu mais amo no mundo vai estar ao alcance das minhas mãos pela primeira vez em mais de um ano. encontro amigos em dias de sol, tomo café, termino um livro, lavo o banheiro toda semana, reclamando: tá muito frio! minha amiga, uma das que eu mais admiro, me diz: vai dar tudo certo pra você! você é muito boa no que faz, e eu penso: ela acha que eu sou muito melhor do que eu sou. e eu penso: e se eu decidir acreditar, mesmo que só por um instante?

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