domingo, 6 de setembro de 2026

reparando

eu tenho essa coisa, que acontece de vez em sempre, que é uma palavra ficar na minha cabeça e eu começar a escrever essa mesma palavra no ar com a ponta do meu dedo indicador direito. às vezes é uma palavra de uma música, algo em que eu estava pensando. é inconsciente, e de repente me pego escrevendo no ar uma, duas, três, vinte vezes. me pergunto se as pessoas na rua reparam, se alguém já achou esquisito; gosto de pensar nisso porque as pessoas repararem nas outras é algo muito interessante, na minha cabeça. reparar no outro é uma forma de amor: você olha, e se pergunta: por que você faz isso? por que isso acontece? o que aconteceu até aqui pra que tudo seja do jeito que é agora?

tem uma história que eu gosto muito, que é: no festival em que beijei amanda pela primeira vez, antes do show que esperávamos, tinha uma pessoa na nossa frente folheando a programação do evento. reparei nela mexendo os dedos, olhando concentrada, nós duas espiando por cima dos ombros daquela pessoa, e disse: “ah, então esse é o seu superpoder.” ela me olhou assustada, naquele momento mágico em que eu sabia que ela estava fingindo controlar a velocidade no qual a pessoa folheava o livreto. eu sabia exatamente o que ela brincava poder fazer. não sei como, mas sei. eu reparei.

tem uma outra coisa que eu também faço: mexer com os dedos. algumas pessoas balançam as pernas, outras roem as unhas, eu já fiz esses dois e também mexo os dedos. toco o mindinho, o anelar, o médio e o indicador no polegar, e depois volto; às vezes, raspo a unha do polegar na digital de cada um desses dedos, ou a unha desses dedos na digital do polegar. não sei por que faço isso. não sei quando comecei a fazer. reparei que fazia quando me sentia estressada, fora do lugar, ansiosa. meus amigos vieram aqui um dia e eu comentei disso com eles, e wesley disse: eu reparei.

reparar é uma coisa tão pequena, mas tão grande, né? tem aquela frase em inglês, to be loved is to be seen. ser amado é ser visto. é repararem em você. minha banda favorita, death cab for cutie, diz em uma música: love is watching someone die. amor é ver alguém morrer. é uma frase que tem muitos significados, mas eu penso em um: ver alguém viver não é ver essa pessoa morrer? a cada dia? não de um jeito mórbido, mas de um jeito bonito. amar é acompanhar cuidadosamente. amar é saber onde alguém deixou um anel, é lembrar do suco favorito, é segurar a mão de alguém que fica cutucando os cantinhos das unhas, o cabelo, ou a sobrancelha, porque a gente se importa. porque a gente sabe por que acontece. porque a gente fica reparando.

7 comentários

  1. amor é isso mesmo, é reparar no outro. e pensar nisso é um jeito gostoso de lembrar quem a gente ama e quem ama a gente. reparando.

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  2. Tá explicado porque eu adoro reparar na minha esposa, o jeito que ela se mexe, o jeito que enrola o cabelo quando está distraída. Texto gosto de ler, Xis.

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  3. Eu sempre soube que amar é ver o outro, mas jamais conseguiria escrever um texto tão bom a respeito, como você fez. Que coisa linda. Bjão

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  4. E o quão bom que é quando a gente sabe do amor e respeito dos outros por nós, pq também repararam. O peso que é tirado das costas quando a gente não precisa pedir por algo, pq o outro viu e fez. Nossa! isso é ouro!!!

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  5. Reparar nas manias de quem amamos é algo que dá um quentinho no coração e quando fazem o mesmo com a gente, nossa, não tem explicação o quão bom é <3
    Que texto gostoso de ler, me fez feliz parar para pensar nessas miudezas tão preciosas.

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  6. Amar é ver o outro. É conhecer, lembrar. E como é bom saber que está sendo visto, percebido...

    Um abraço.

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  7. que texto bonito, é tão bom ser visto

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