os dias têm passado por mim com uma lentidão e rapidez absurdas, como se eu estivesse parada enquanto o mundo à minha volta segue no dobro da velocidade e eu me movesse na metade dela. acho que já comentei aqui diversas vezes, mas a falta de propósito que tenho sentido na minha vida como um todo tem afetado bastante tudo — a voz zumbindo na minha cabeça (ou a falta dela), a forma como eu consumo ou deixo de consumir entretenimento e informação. o fato de estarmos vivendo uma hecatombe natural e social (meu deus do céu o mundo vai acabar. meu deus do céu o mundo está acabando) torna essa necessidade de propósito ainda mais urgente, e a sua falta um estorvo ainda maior.
no meio disso tudo: assisti de cabo a rabo a série friends. nunca tinha parado pra ver, apesar de ser um fenômeno do entretenimento e estar presente em todo lugar, e foi ótimo pra me fazer companhia enquanto pessoa que mora sozinha. vocês também usam séries pra fazer barulho e companhia e não se sentirem tão solitários? é meio triste, mas trabalhar de casa e morar sozinha (e em são paulo, ainda por cima, onde ninguém tem tempo pra ver ninguém) é algo que torna os dias um grande silêncio, a não ser que eu fique falando sozinha (faço, eventualmente) ou ligue pra alguém. como ligações não são tão o meu forte, prefiro aproveitar as oportunidades de encontrar meus amigos pessoalmente e acompanhar situações fictícias. dito isso: é muito interessante assistir algo que foi lançado há tanto tempo, já. a série é divertida, mas passei muita raiva com as personagens, porque, obviamente, a intenção é que várias delas sejam irritantes. confirmei que joey e phoebe são adoráveis, apesar disso, e sinto falta da série que acompanhei por 10 temporadas, vinte anos depois do seu lançamento. é difícil se despedir (e é por isso que eu já reassisti brooklyn 99 mais vezes do que gostaria de admitir).
viajei pra minha cidade, e fiz uma surpresa pra minha mãe, no meio do mês passado — ela faz aniversário dia 15, e eu fingi que não ia dar pra aparecer por conta do trabalho. só choveu, mas minha mãe ficou contente, vimos parte de uma novela turca muito exagerada e maluca, eu e meus amigos falamos sobre o fim do mundo (que ainda não estava tão iminente quanto agora), joguei wingspan pela primeira vez e amei (eu precisava de amigos em são paulo que me chamassem pra jogar jogo de tabuleiro toda semana, porque é sempre tão divertido!), revi gente querida e fiz carinho em passarinhos. o sol estava começando a querer voltar, e, assim que voltei a são paulo, o frio e a chuva deram uma trégua. acho que isso ajudou o meu humor a melhorar. não é maluco como o clima influencie tanto a gente?
de todo jeito, me senti um bocado melhor assim que voltei pra casa. com um pouco mais de ânimo pra existir, por assim dizer; afinal, estar triste e desmotivada cansa, cansa mais que uma maratona, e meu corpo estava exausto de estar triste. comi melhor, fiz uma torta, minha prima veio me visitar, consegui me empolgar com o trabalho novo, várias coisas foram dando certo! comprei uma armação redonda pra mandar fazer meus novos óculos, fiz um exame odontológico e marquei minha volta na dentista. acabou que vou remover os sisos, todos os 4 de uma vez (o que me deixa feliz, porque estou apavorada de fazer uma cirurgia ACORDADA, então que pelo menos o trauma seja um só). comprei coisas geladas, congelei sopas, estou me programando toda pra arrumar a casa e ficar completamente de repouso nesse fim de semana, aproveitando a segunda de feriado. vem aí minha fase sem juízo!
nesse domingo, fui ajudar minha prima a organizar a casa e separar roupas pra doar. eu sou uma pessoa muito prática nesse sentido, e gosto muito de ajudar as pessoas a organizarem suas casas, porque consigo ser muito mais objetiva quando não é a minha casa e a minha bagunça. quando a tarde foi chegando ao fim, fomos dar uma olhada na apuração e variamos entre o desespero e o desespero premium enquanto fazíamos sabão (minha prima é uma maga de produzir coisas como sabões, velas e cosméticos). não vou mentir: ainda estou desolada, e vendo se consigo arcar com a viagem à cidade dos meus pais pra votar no segundo turno, porque é necessário, muito necessário. cada vez mais se faz necessário lutar por direitos conquistados, pelo que se acredita, e contra pessoas que vão de encontro ao que a gente enxerga como certo. mesmo exausta, mesmo deprimida, não quero deixar de acreditar e tentar nos tirar das garras desses que causam morte, espalham desinformação e servem como estandarte pra corrupção. com críticas ou sem críticas, com ressalvas ou sem, a esquerda deve se juntar e votar pra não deixar que a extrema-direita tome o poder, e buscar abrir o caminho pra que lideranças novas, jovens, progressistas e revolucionárias continuem trilhando rumo ao futuro que a gente acredita.
é isso. o sol parou de aparecer outra vez, e queria que não estivesse chovendo tanto. as pontas dos meus dedos estão descascando, e eu não faço a menor ideia do porquê. estou relendo uma série de livros de ficção científica escrita por um maluco fundamentalista pela primeira vez desde a minha adolescência, e tem sido, no mínimo, interessante (e no máximo educativo, mostrando que a gente tem que parar de bater palma pra maluco dançar). estou com saudades de poder sair no sol (fiz isso nesse último sábado e foi tão bom!), e torço pra que tudo se encaminhe pra um lugar melhor.
mesmo que não aconteça, continuamos. e nos mobilizamos. existir tem sido permanentemente difícil nesse momento da minha vida, e não vai ser agora que eu vou deixar a peteca cair. ou assim espero.