segunda-feira, 10 de agosto de 2026

não dá pra fugir dessa coisa de pele

há duas horas acordamos, morrendo de sono, porque amanda tinha uma carona pra pegar às oito; fazendo as contas — “são dez minutos até o metrô” “nem são dez, dá menos” “aí são quinze até ali com a baldeação” “mas até com a baldeação é menos que isso, amor, dá uns cinco, eu juro” —, grogues de sono, conseguimos enrolar um pouquinho mais, até as seis e meia. ela tinha que arrumar a mochila pra ir de novo pro interior, eu tinha que levantar porque queria fazer companhia até a hora da partida. às vezes me sinto como um gato, um cão, um bichinho que quer ficar por perto o tempo todo, encostado, numa sensação de segurança.

separa roupa, escolhe o que vai deixar, o que vai pra mochila, eu pego algumas roupas que estavam estendidas porque lavamos ontem. ela tomou um banho rápido, duas músicas de duração, e eu fiquei deitada no sofá enquanto coisa de pele, do jorge aragão, tocava suavemente no banheiro. às sete ela saiu, cheirosa, com um beijinho, e eu voltei pra cama. cheirei o travesseiro dela e comecei a reparar nos barulhos da cidade já a todo vapor: os ônibus, carros, caminhões, os sons que não se sabe ao certo de onde vêm, mas que estão aí mesmo assim. tento fechar os olhos pra dormir mais um pouco, já que fomos dormir tarde e não tenho nenhuma reunião logo cedo, e no braço que coloco ao lado do rosto ficou o cheiro do perfume dela que pegou na minha pele com o abraço. penso, de novo, nas pequenas coisas que constroem o amor, a saudade, o dia, tudo o que define como vai ser o dia e como eu vou me comportar. são as variáveis que definem se uma formiga segue o caminho das demais ou se desvia da rota, não é...? como não sei muito de insetos, melhor engavetar essa comparação. é o que dita o começo do meu dia, pelo menos, e pego o celular pra escrever; acabo decidindo buscar o computador, porque é mais fácil.

ontem foi um dia bom, mas confuso, mas bom, mas difícil, mas bom. eu nunca amei-sendo-amada-de-volta alguém que estivesse perto desde sempre, então aprendi a despedida como parte do ritual do amor, a parte que dilacera só pra pra curar e dilacerar de novo quando necessário, quando a gente quase não se lembra da cicatriz. todo relacionamento tem seus problemas, e os meus sempre foram permeados por lágrimas em portas, portões, rodoviárias, aeroportos, aviões, ônibus, carros, camas, nessa saudade aterradora que destrói; mas destrói sabendo que eu vou passar um café destruída, vou entrar em reuniões, vou colocar um sorriso no rosto e fazer o que tem que fazer. ainda queria entender melhor dessa saudade e por que ela machuca tanto, aprender a carregar o porco-espinho sem me espetar, mas por ora deito ao lado dela na cama e a abraço, espinhos e tudo, na falta de quem me faz falta. eu tenho pensamentos e palavras demais dentro de mim e preciso colocar pra fora, e ontem — talvez pela breve despedida iminente, talvez porque, simplesmente, domingos — despejei meu coração nas mãos dela, em cuia; ela derramou o dela nas minhas também e, entre lágrimas e a tevê tocando reptilia dos strokes uma vez atrás da outra por motivos misteriosos, entre frases que tentam fazer sentido e a gente tentando sentir tudo o que precisa sem sofrer tantas consequências, tudo ficou bem, ou o quão bem se é possível ficar.

uma vez eu escrevi que “é fantástico que você goste de mim, e talvez seja fantástico que eu goste de você. é fantástico te deixar existir ao meu redor e que você me deixe existir ao seu redor também. ‘é sempre um prazer inenarrável’, você diz, e eu me pergunto se você sabe o quanto cada palavra dessa é especial, o quanto eu senti falta de falar com você sobre as coisas, da mais séria à mais besta”, e é mais ou menos isso que se mantém acontecendo, sempre. eu amo ter um você específico para o qual eu posso escrever; você é meu vocativo permanente, é pra você que eu escrevo cartas de amor, é pra você que eu digito mensagem, escrevo histórias, postagens de blog que podem nem ser lidas agora ou depois. amar alguém e ser amada de volta continua sendo fantástico, te encontrar e desencontrar e reencontrar é fantástico, e o seu cheiro no meu braço me faz rir e chorar ao mesmo tempo, e a graça é essa. a força é essa.

é segunda-feira, e eu vou insistir até conseguir tudo o que eu quero. até viver na mesma cidade, na mesma casa, até o problema não ser a falta, até a questão não ser a distância, até que eu sinta o perfume dela todo dia quando for deixar um beijo no seu pescoço, até que todo dia ela me abrace e eu veja tão de perto o conjunto de tudo que tem nesse rosto e que eu amo.

eu sou uma pessoa feita pra amar, afinal de contas, então vou continuar até que tudo na minha vida seja feito de amor.

essa postagem faz parte do beda, projeto cujo objetivo é escrever (ou tentar) todos os dias de agosto. tô participando junto com a galera do entreblogs, e você pode dar uma bizoiada no que todo mundo têm escrito aqui :^)

Um comentário

  1. Espero que logo logo a saudade não seja mais tão presente pra vocês <3


    Limonada


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é legal: falar de sentimentos, comentar coisas aleatórias, pedir pra mandar beijo pra família, indicar coisas maneiras (ou ruins também, tá valendo)
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