sexta-feira, 7 de agosto de 2026

as pequenas coisas

arte por anna-laura sullivan

ando meio monotemática ultimamente, mas é porque quero aproveitar cada instante do tempo que estou passando com amanda antes que ela inevitavelmente volte ao méxico. os dias têm sido uma mistura entre felizes, preguiçosos, difíceis, ansiosos... a vida não para só porque a gente quer aproveitar uma coisa, e eu acabo fazendo um malabarismo doido pra tentar viver tudo da melhor maneira. olha só: até aí a ansiedade e a vontade de ter o controle de tudo me pega (alô, terapia).

eu sou uma pessoa carente. não com aquele tipo insuportável de carência (ou pelo menos eu espero que não), em que você precisa estar grudado o tempo todo, mas reconheço que minha vida fica meio triste quando eu não tenho companhia. tento me cercar sempre de amigos, pessoas, ambientes agradáveis, sons, tudo o que me ajude a não estar sozinha — e, morando só e trabalhando de frente pra um computador na minha própria casa, é inevitável que eu passe grande parte do tempo exatamente assim: sozinha.

ter amanda aqui matou duas das coisas que estavam me matando, a saudade e a solidão. conviver com ela é gostoso, fácil, e assim que ela chegou uma das coisas que eu pensei foi em como é maluco que ver alguém que eu não via há mais de um ano veio com a sensação de que fosse só mais um dia, como se a gente tivesse se visto no dia anterior. a gente ouviu música junto, jogou videogame, viu filme, série, saiu pra bater perna na rua, fez tudo o que tinha direito.

essa semana ela passou comigo, em são paulo; na segunda, ela vai pro interior outra vez, ficar com a mãe dela um bocado. não é uma despedida definitiva, mas é quase — ela só volta na outra segunda, pra ir embora de vez na terça. logo, por mais que eu não esteja necessariamente pensando nisso o tempo todo, meu corpo reage à parte do meu cérebro que não deixa essa informação escapar: tenso, fazendo a conta de quanto tempo eu ainda tenho pra passar junto com ela (namoro à distância é terrível, jovens, não cometam esse crime). hoje, por exemplo, ela foi trabalhar um dia presencial, aproveitando pra ver o pessoal da empresa que trabalha aqui do brasil, o que me deixou sozinha em casa, em um dos poucos momentos que estou passando sozinha desde que ela chegou. logo depois de fechar a porta, voltei pro quarto, porque ainda estava cedo; o boné dela, o gorro e a garrafa d’água estão sobre a cômoda, do outro lado da cama. quando me deitei, meus olhos repararam na mochila roxa, no cantinho do quarto, encostada quase como quem diz licença, desculpa, vai ser rapidinha a minha estadia aqui. mesmo agora, digitando isso, eu penso: não seja uma estadia rapidinha, não. fica mais tempo, faz o tempo passar devagar, que nem os móveis coloniais de acaju falam na música. fica, fica...

enfim, divago. ficando em casa, me arrumando pro trabalho, eu reparo nas pequenas coisas:

  • o perfume do lado dos meus, que só não é mais gostoso que o cheiro puro da pele dela,
  • as duas escovas de dente (as duas são dela e não, eu não sei o porquê) dentro da caneca na pia do banheiro,
  • as toalhas secando, mais bonitas que uma bailarina sincronizada com outra, porque são as nossas,
  • o remédio dentro da bolsinha (“lembrou de tomar o remédio?” “lembrei, amor”), pra ajudar com a cabeça,
  • o chinelo que eu separei e que ela nunca usa, porque prefere andar descalça,
  • o cheiro dela que fica na cama, onde a gente se deita pra pensar no que a gente faz com essa ansiedade toda, como a gente faz pra viver melhor,
  • a garrafa de original que ela tomou ontem, vendo o jogo do corinthians, fazendo piada que o time precisa de jogador feio, porque os bonitos não fazem gol,
  • as balas halls de uva verde na geladeira, porque não tem esse sabor por lá, e que eu comprei um monte pra ela matar a saudade,
  • a louça secando na cozinha, prova de que eu não tô vivendo só.

e são coisinhas que me fazem feliz, as mesmas coisinhas que eu tento desesperadamente absorver por saber que estarão fora do meu alcance muito em breve. a saudade em mim bate forte e eu sei que vou tentar me distrair com todas as coisas possíveis, mas ela vai continuar aqui enquanto quem eu amo não estiver. são coisinhas das quais eu vou me lembrar e sorrir quando já não estiver mais chorando.

são coisinhas, coisas pequenas, das quais se constrói uma rotina e que se faz o amor.

essa postagem faz parte do beda, projeto cujo objetivo é escrever (ou tentar) todos os dias de agosto. tô participando junto com a galera do entreblogs, e você pode dar uma bizoiada no que todo mundo têm escrito aqui :^)

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